imperfeito

quinta-feira, setembro 18, 2008

Blogagem Coletiva para Flavia + Ferreira Gullar + Elogio ao Amor

Flavia

Com bastante atraso, hoje é dia 18, motivado pelo excesso de trabalho, venho unir-me aos bons e exigir que se faça Justiça. Todos conhecem a história da Flavia. Ela sofreu sérios danos ao ter seus cabelos sugados pelo ralo da piscina do condomínio onde morava. A Justiça brasileira, caolha e vesga, lhe deu ganho de causa, mas não na mesma medida dos sofrimentos físicos e psicológicos que lhe foram impostos. Que se faça Justiça na medida exata, é isso apenas o que se pede.

Ferreira Gullar

um dos homens a que mais admiro fez aniversário no dia 10 de setembro. Meus Super Parabens, bem atrasados

Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim é multidão
outra parte
estranheza e solidão.

Uma parte de mim pesa, pondera
outra parte
delira.

Uma parte de mim almoça e janta
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim é permanente
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim é só vertigem
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte
- que é uma questão de vida ou morte -
será arte?


ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição.. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

4 Comments:

  • Nunca é tarde para se pedir por justiça e, no caso de Flávia, ela está demorando demais a chegar.

    A respeito do Gullar, você colocou o texto dele que eu mais gosto. Boa semana!

    By Anonymous Andréa Motta, at 5:19 PM  

  • Uau! Não me lembro de ter lido coisa tão linda sobre o amor como esse texto do Miguel!

    By Blogger Aline, at 7:56 PM  

  • Luiz, me desculpe a invasão ! Chego aqui através da Tâmara e não pude resistir e comentar.
    Seu blog é devéras convidativo e quando a gente vê já ficou um tempão entretida entre textos, fotos e poesias.
    Parabéns
    Gostei e voltarei !
    Pensei linkar-te (esses verbos virtuais...) .Posso???
    Ale

    By Blogger Ale Danyluk, at 8:55 PM  

  • A proximidade sufoca o amor aos poucos. A distância o mitifica a ponto de transformá-lo no único fantasma que acompanha um suposto eremita.

    Preciso descartar os meus platonismos...

    By OpenID indiecool, at 1:33 PM  

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